E houve também aqueles dois gloriosos dias em que fui ajuda de pastor, e a noite de permeio, t o gloriosa como os dias. Perdoe-se a quem nasceu no campo, e dele foi levado cedo, esta insistente chamada que vem de longe e traz no seu silencioso apelo uma aura, uma coroa de sons, de luzes, de cheiros miraculosamente conservados intactos. O mito do paraíso perdido é o da infância ? n o há outro. O mais s o realidades a conquistar, sonhadas no presente, guardadas no futuro inalcançável. E sem elas n o sei o que faríamos hoje. Eu n o o sei.
Neste fragmento de A Bagagem do Viajante (1973), José Saramago recorda o dia em que foi ajudar o tio a vender porcos na feira. O reconto dessa experiência aparentemente comum espelha todo o seu poder narrativo, levando-nos para um mundo de deslumbramento que só a infância permite, e que Armando Fonseca ilustra na perfeiç o.