Este mundo n o presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de raz es suficientes. / Sejamos c es do c o: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as m os, se dependentes.
Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo interior labiríntico de respiraç o que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os poemas possíveis da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicç es profundas de Saramago já s o bem visíveis em poemas como Criaç o : Deus n o existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De geraç es inúmeras nesta esfera. / Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.